Ele não ligou no dia seguinte

Ele não me mandou uma só mensagem de boa noite. Não me mandou uma nota de áudio no WhattsApp. Um e-mail. Um sinal de fumaça. Sei lá, esperava no mínimo uma carta.

Não consigo entender, estava tudo ótimo entre nós. Ontem fez um mês que nos conhecemos no Tinder e parecia que nos conhecíamos há anos. Fomos feitos um para o outro. Ele me mandava mensagem de bom dia, me ligava na hora do almoço, mandava notas de áudios com suas músicas preferidas, tirava fotos fazendo caretas e me deseja boa noite pelo WhattsApp.

Eu sempre fui um cara um pouco carente. Um pouco não, muito carente. Todos diziam, e você sabe, se todos dizem é porque no fundo tem um pouco de verdade. E confesso que metade de mim é carência e a outra é medo de ficar sozinho. Ou seja. Um vulcão de sentimentos.

Fomos ao cinema e depois resolvemos jantar no Outback. Tudo estava perfeito, desde a luz do ambiente até os talheres, os diálogos foram completos. Estávamos em sintonia, sorríamos, brincávamos, falávamos sobre nossos pais e nossas bandas preferidas. Os seus olhos sumiam toda vez que ele sorria. Era mágico.

Ele me levou para casa, e deu a entender que queria subir, mas resisti. Não sei, mas não acho certo dar um passo tão rápido na nossa relação. Ele queria dormir comigo, mas transar no primeiro encontro não me parece algo certo a se fazer, não quando de está querendo algo sério com essa pessoa. Resisti.

Ele me deu um beijo na testa, agradeceu a noite e disse: “Vamos nos falando…”. U-A-U, vamos nos falando? Isso significa que ele gostou e quer sair comigo de novo. Significa que eu fiz tudo certo, pensei. Como eu estava feliz, eu nunca tinha sentido isso antes, meu estômago estava revirado, era como se mil borboletas estivesses voando por ali.

Eu tomei um banho morno antes de dormir, deixei o celular na pia, e tirei do silencioso porque esperava o toque de mensagem. Eu estava muito ansioso, mas a mensagem não chegou. De tanto esperar acabei dormindo com o celular na mão.

Pela manhã, a primeira coisa que eu fiz foi verificar se havia algo, mas não tinha nada. Pensei em ligar, ou mandar uma mensagem de “Bom Dia”, mas não queria parecer desesperado. Não queria que ele pensasse que eu estava doido por ele, porque eu estava, mas não acho que era a hora certa dele saber.

Chegou o almoço e nada chegou, no café da tarde, saída do trabalho, mas nada do meu celular vibrar. Quase deixei meu celular quebrar por deixá-lo em cima da esteira esperando uma ligação dele ou, sei lá, uma mensagem. “Eu não devo ter feito nada certo, eu poderia ter me saído melhor, burro.” Eu repetia isso várias vezes na minha mente. “Que má sorte eu tenho. Não faço nada certo. Será que ele sofreu um acidente? Será que ele está precisando de ajuda? Será que ele encontrou outro alguém?”

Éramos tão perfeitos, tão fofos juntos, eu já nos imaginava daqui há alguns anos. Viagens, passeios no parque, almoço em família, porta-retratos na cabeceira da cama. Já tinha tudo planejado na minha cabeça. Era só ele pedir que eu me casava com ele na mesma hora. Mas não, ele ainda não ligou.

Entrei no face, e como todo curioso a primeira coisa que fiz foi entrar em seu perfil, fiquei no mínimo uns quinze minutos vendo suas postagens, havia várias fotos, dentre elas uma dele e os amigos no bar, parece que era o aniversário de um deles. Enquanto na noite anterior eu estava dormindo preocupado se havia feito algo errado, ele estava no bar com seus amigos. Estava feliz. E eu? Um caco.

Passaram-se dias e ele desapareceu. Mas no face e no WhattsApp ele sempre estava on, ele estava lá, ele só não queria falar comigo. “Não, não era pra ser. Não, eu vou mudar, eu sempre sofro com meus relacionamentos. Não posso mais me entregar tão rapidamente para alguém que acabou de sorrir para mim. Essa carência, essa necessidade, esse medo, isso tudo tem que passar.” Repetia pra mim como uma fita de rádio no replay.

Comecei um processo de limpeza, não só sentimental como social também. Deletei tudo, facebook, Whatts, deletei o número dele, minha conta no Tinder, voltei a ver meus amigos. Parei de procurar, me conformei que isso não era pra mim. Parei de associar minha felicidade há alguém.

Ontem fui na banca de jornal, havia um moço comprando um gibi da Turma da Mônica, o nome dele é Lucas. Eu descobri. Ele sorriu pra mim e eu sorri também.

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13 comentários em “Ele não ligou no dia seguinte

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  1. Achei o texto muito bem escrito, adorei cada vírgula, quase que literalmente, digamos. A história também é bacana, mas achei o desfexo pessoal meio decepcionante! Fiquei aqui do outro lado da tela pensando “E é.agora que ele toma o controle pra si, ele mesmo liga!”, mas essa parte nunca chegou. Não entendi a questão de ter gostado do cara, querer ficar mais com ele, falar mais com ele e esperar ele fazer alguma coisa quanto a isso. Você tinha vontade de um “boa noite”, porque não mandou um? Só pra pensar!

    Um beijo.

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    1. Oi, Jess, então. Esse texto não foi baseado em alguma história real, eu criei da minha cabeça mas eu tenho certeza que várias pessoas já passaram por isso. Talvez ele não tenha ligado de volta para não demonstrar o quanto estava afim, porque ele tinha na cabeça que ser indisponível e não atrás faria com que o outro entrasse em contato, mas provavelmente o outro também estava esperando essa mensagem justamente para não passar essa impressão! Nessa os dois acabaram perdendo a grande oportunidade de estarem juntos ou, sei lá, se conhecerem melhor e ver no que poderia dar!

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  2. O problema é que estamos sempre com medo de parecer “desesperado” ou qualquer outra coisa que possa ser vista de má forma. Enquanto o outro possa ter simplesmente pensado na mesmas coisa, e o “relacionamento” foi perdido por orgulho.

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  3. Texto incrível! Me identifiquei rápido, mesmo sem querer parecer desesperado, teria enviado um “Bom Dia” só para ter certeza. Ambas as partes podem pensar da mesma forma e ter receio de ser rejeitado, então perder uma oportunidade super legal de estar com alguém. Alguns procuram formas de não se apegarem, já outros não conseguem esquecer de um sorriso.

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