Caetano, 16 anos, gay e prostituto

O prédio era de um cinza todo espelhado. Havia uma imensa porta de correr na entrada e dois homens que pareciam dar informações para quem chegasse ao prédio. Havia um tapete vermelho com as laterais de linho dourado, era camurça, senti ao tocá-lo com meu all-star surrado. Abri o WhattsApp para confirmar o endereço, Av. São Paulo, número 1445. Eu estava ali, trêmulo, ansioso e atônito. Enquanto me dirigia ao hall de informações eu sentia que todos me fitavam assustados. Em um universo de mulheres vestidas com roupa social e homens de terno, um garoto de 16 anos com um all-star vermelho surrado, uma calça jeans justa e uma camisa larga preta escrita Lana Del Rey chamaria muita atenção.
Ao me deparar com uma mulher de olhos claros e de sorriso amarelo procuro pelo senhor James. Ela mais que rapidamente pergunta meu nome, dá um telefona e diz que posso subir no 14º andar. Um frio se instala em minha barriga e penso em desistir, porém eu não cheguei até aqui à toa. Respiro fundo e me dirijo ao elevador, há uma senhora com uma cadela ao colo, e sua roupa era elegante, um vestido branco, um salto alto, porém um rosto carregado de maquiagem, parecia que ela acabara de vir de uma festa. Ou não. A porta se abre e entramos sorrateiramente. Ela aperta o 10º andar e eu o 14º. A cada andar que subíamos meu coração se acelerava e minha respiração ainda mais ofegante. Estava ansioso para conhecer o senhor James e descobrir do que ele era capaz.
Enfim chego no meu andar. Há dois vasos enormes com plantas na entrada de uma porta simples de vidro escrito: “Clínica do Dr. James”. Muito pequeno para uma clínica, mas não me prendi a esse detalhe. Delicadamente abri a porta e havia uma mulher branca, pálida e de uma aparência cadavérica, no seu crachá havia um nome, Dulcinéia. A mulher apresentava ter mais idade do que realmente tinha, se eu pudesse chutar diria que uns 60 anos, talvez. Ela pergunta para mim se tenho hora marcada e digo que sou encaixa, ela procura no computador se o nome Caetano encontra-se nos registros porém sem sucesso. Ela pede para que eu aguarde e enquanto se dirige a sala que parecia ser a do senhor James, um homem, na verdade um senhor de uns 58 anos abre a porta, seus cabelos são grisalhos, seu rosto há rugas aparentemente pesadas, sua expressão é triste e sua roupa é surrada, um terno velho que provavelmente não vê uma máquina de lavar há anos.
Ele me olha e sorri, diz para a senhora que não há problema, abriríamos uma ficha depois. Acompanho o senhor para dentro da sala, fecho a porta vagarosamente e observo a recepcionista me encarar com desconfiança. Dou um sorriso de lado e tranco a porta. Eu estava diante do meu primeiro programa.

Ele tocava meu corpo com propriedade, como se conhecesse cada local do corpo que me proporcionava prazer. Seus dedos passavam pelas laterais do meu abdômen. Seus lábios pesados deslizavam pelo meu pescoço e seu corpo quente roçavam no meu. Por mais que aquilo fosse extremamente nojento, no fundo, eu estava sentindo prazer. Uma sensação que há tempos não sentia – aliás, é bem melhor que as drogas que usara semana passada – Fico anestesiado por alguns minutos e ele me faz gozar com sua língua em meu mamilo.
Com a respiração ofegante, voltei em mim aos poucos assimilando o que acabara de acontecer. Com uma de minhas mãos, levei meus cabelos para trás e em seguida fiz um coque. Meu rosto de branco se tornou vermelho e aos poucos se transformou em um rosa bebê. Minha boca pequena permaneceu vermelha por algumas horas. Coloquei minha camiseta e minha calça, e deixei para ele minha cueca como lembrança, seguido de um papel escrito a caneta: “Se precisar, só chamar”. Acima da mesa do escritório havia 150 reais em notas de onça. Mais que rapidamente guardei o dinheiro em minha mochila e abri a porta sem olhar para trás. Deixei aquele velho deitado nu em um sofá preto de couro que mais parecia uma cama. Saí sorrateiramente para que a recepcionista cadavérica não me visse. Ela estava de costas falando ao telefone com a moça da recepção principal sobre um encontro que teria sábado à noite. Apertei o elevador e ao olhar para o lado me deparei com um bebedouro ao final do corredor, mas desisti de tomar a água, pois eu só queria sair dali o mais rápido possível. A sensação de fuga é uma das melhores partes desse universo no qual me inseri.
Abri o celular e pedi um Uber para o shopping mais próximo. O carro era um novo Ford Ká branco com os bancos de couro preto. Havia várias garrafas geladas de água e balas. O motorista era novo, tinha lá pelos seus 29 anos. Vestia camisa polo vermelha, uma calça jeans e um tênis preto. Seus cabelos eram ondulados, sua barba estava por fazer e seu perfume era muito forte. Me sentei no banco de trás e trocamos algumas palavras mas só. Logo cheguei ao shopping e senti um cheiro de sexo nas minhas mãos, minha camiseta estava com o cheiro do perfume do senhor James, por mais que ele tenha me proporcionado momentos de prazer, negócios são negócios e não devo misturar ou deixar resquícios de momentos que, graças a Deus, não voltam mais.
Entrei em uma loja de grife, e uma mulher negra de pele impecável com um vestido amarelo e salto alto veio em minha direção. Pedi para que ela me levasse na sessão masculina e sem deixá-la perguntar qual o estilo procurava, peguei a primeira camiseta que vi pela frente e fui para o caixa. Só queria me livrar daquele cheiro maldito. Fui ao banheiro e troquei de camiseta, acabei jogando a que estava vestido fora. Era a minha camiseta preferida da Lana Del Rey, mas supero rápido, presumo. Passei um perfume e coloquei um halls de menta na boca, parei em uma livraria. – Gosto de ler, gosto de escrever também mas há tempos não pratico esse hábito. – Acabei comprando dois livros, um que falava sobre o zodíaco e outro sobre culinária japonesa, não me pergunte o porque comprei esse livro, mas acredito que tenha sido pela capa.
Enfim, me sentei em um sofá que ficava à frente da livraria e passei algumas páginas dos livros, mas logo enjoei e guardei para lê-los mais tarde.
Abri meu celular, haviam três mensagens no aplicativo de paquera, “Mr. Dotadão”, “Macho X Macho” e “Coroa Quer Novinho”, verifiquei as fotos e o perfil de cada um, deletei o Mr. Dotadão e deixei o Macho X Macho para depois. Sua foto de perfil me chamou a atenção, porém o meu foco é o Coroa que procura um novinho. “Oi”, eu disse. E ele me respondeu “Olá, tenho local, afim agora?”, logo passei a localização do shopping onde estava. Fiquei esperando-o na frente da entrada principal. Um carro preto importado parou ao meu lado em poucos minutos e um vidro com insulfilm se abaixou – “Olá, você é o Novinho Afim?” – afirmei que sim com a cabeça e entrei no carro. Eu estava à frente do cara que mudaria minha vida para sempre. Para pior.

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