Orgasmo com penetração é lenda, ela me dizia

Orgasmo com penetração é lenda, ela me dizia. Casualmente, cruzava a porta da minha casa com uma sacola de cervejas baratas nas mãos. Com uma playlist especialmente selecionada, plugava o aparelho celular no dock station da sala, dando voz a Narah Jones, Peggy Lee, Valaida Snow e Nina Simone – ícones da época na qual ela protestava ter percorrido a sua vida passada.

“Dance comigo até o fim do amor. Touch me with your naked hand or touch me with your glove”, soprava em meu ouvido ao passo em que percorria os dedos franzinos em meu cangote. Ela degustava, intensamente, da liberdade que encontrava entre as paredes da minha casa.

Há oito meses, eu era a sua plateia de uma pessoa só, posta a assistir o seu espetáculo existencial. Há oito meses, ela vivia a experiência de se deliciar com as aventuras de ter uma vida sexual com uma mulher. Éramos, definitivamente, o casal que ela sonhava quando adolescente, antes de se casar com o gerente de comunicação da empresa onde dedicou a sua vida profissional inteira.

Prestes a completar 30 anos, dizia-se cansada dos padrões. “Você acha que eu ficaria bonita com o mesmo corte de cabelo de Elis Regina?”. Passou a seguir páginas de empoderamento feminino no Facebook, comprou uma assinatura anual da revista Piauí – com endereço de entrega em minha casa –, abandonou a maquiagem carregada e encomendou um Kama Sutra Lésbico. Era uma verdadeira aprendiz.

No sofá, alisando meus cabelos enquanto balançava os pés ao som de um cover francês de True Colors da Cyndi Lauper, me dizia “Como pude demorar tanto tempo para ser quem eu realmente sou? Como eu resisti a todo esse tempo?”. “Tudo tem a sua hora”, eu disse. “Não se julgue, meu bem”.

O ponteiro do relógio marcava quarto horas da tarde. “Preciso ir buscar a Helena na aula de pintura. Pode terminar de beber as cervejas, só não fume muitos cigarros”. Despediu-se me dando um beijo calmo.

Iria buscar Helena em um curso temporário para crianças no Sesc. Passaria na padaria para comprar pães para Rogério, seu marido. E voltaria para a minha casa na próxima quarta-feira, dia previsto para a chegada de mais uma edição da sua Piauí.

No banheiro, prestes a lavar as minhas mãos lambuzadas de Amélia, leio no espelho, rabiscado à batom, “Dance comigo até o fim do amor”.

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