Use meus versos como legenda e acredite, terá likes

Tinha os olhos mais bonitos. Não digo isso pelo clichê da pigmentação, que a genética qualifica como “dominante”, mas sim pela trivialidade. Não eram olhos de ressaca, muito menos os de cigana oblíqua e dissimulada – quisera eu ser Dom Casmurro, camarada. Também não eram olhos de comer fotografia. Devoravam-me. Lambiscavam-me. Petiscavam-me, fazendo da minha carne alvo bem-feito para uma selvageria marginal.

Ao ser questionada, colocava-os ao lado superior esquerdo do globo ocular, à medida que investigava as sentenças na memória. Seus olhos eram tão cautelosos quanto as suas mãos, tateavam cada superfície com zelo para evitar o desmoronamento – e como as minhas estruturas desabavam.

Não eram tão sinceros quanto você acreditava, pois omitiam o fogo da raiva. Às vezes explodiam para dentro, resultando em um chororô inigualável, mas, na maioria das vezes, resguardavam-se para poderem evitar a fadiga de um bate-boca dispensável.

Hoje, julgo-os inteiramente atemporais. Espero que a vida tenha compaixão suficiente para deixar-me examiná-los durante as próximas estiagens. Caso não, glorifique-se com as minhas palavras e os publique, semanalmente, em sua conta no Instagram. Utilize meus versos como legenda. Acredite, terá likes.

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