7 segundos

Leia esta carta ao som dessa música.

Olá, meu nome é Thómas.

Provavelmente você não me conhece, e acredito que talvez seja melhor assim. Já faz algum tempo que não consigo manter um diálogo com alguém por mais de sete segundos, então, ficar distante e entrar em contato por uma carta, talvez seja a melhor forma de conseguir passar essa mensagem a diante.

Eu tenho 17 anos, moro no Brasil, em uma cidade tão pequena que talvez não exista nem mesmo no mapa de cidades do meu estado, mas onde eu moro não importa, o que importa é o porque estou escrevendo essa carta. Eu sugiro que você pare o que estiver fazendo nesse exato momento para me ouvir pois é importante.

Eu estava vivo até 3 dias atrás, vivo não, a palavra correta seria “sobrevivendo”, pois é difícil acreditar que se tem uma vida aos 17 anos de idade no ensino médio, sem trabalho, sem namoro e amigos. Eu nunca fui um garoto de grandes responsabilidades, aliás, nunca serei pois nesse momento eu não existo mais. Não é engraçado? Eu estou aqui e “bum” em menos de oito segundos não estou mais. Sim, foram oito segundos entre o engatilhamento e um tiro certeiro na boca. Pensei que ia doer. Besteira, eu já me  calejado há 17 anos.

Não sinto mais dor. Não sinto mais nada. Isso lembra meus fins de noite, quando ainda tentava sentar nos bares com vocês. Ou nas equívocas manhãs que saia mais cedo pra irmos na cafeteria da escola. Provavelmente, para algumas pessoas eu terei ido para o inferno, para outras, estou vagando pelas ruas sem ao menos saber que estou morto. Não precisam pensar muito, só estou… Livre. Inclusive de mim mesmo. Qualquer lugar na terra é um lugar na terra. E fora dela vou me libertar.

Você deve estar curioso para saber o motivo de eu ter partido e deixado essa carta. Enfim, eu vou explicar, mas preciso que você guarde esse segredo, não é o tipo de carta que eu queira que todo mundo leia, só as pessoas especiais. Eu me matei por dois motivos. 1º pensava que o mundo seria melhor sem a minha presença, afinal, eu atrapalha tudo, não é mesmo? 2º eu acreditava que a dor enfim passaria, que eu não seria mais chacota de ninguém, nem sentiria tanto medo e essa tristeza que tocava meu coração de forma intensa e constante.

É difícil viver bem quando você não se encaixa em nenhum grupo e seu melhor e único amigo é o zelador da escola, mas até que aguentei bem se você for avaliar por tudo o que eu passei para chegar no limite. Hoje olho para trás e ainda não me sinto pertencente a lugar nenhum, mas pelo menos há uma paz interior de dever cumprido. Eu concertei tudo já que, segundo eles, eu sempre atrapalhava. Minha vida nunca foi fácil, mas qual vida é? A diferença entre nós é que você, provavelmente, é mais forte que eu, e isso é muito importante para se viver, mas eu sou fraco, frágil e um tanto quanto depressivo, talvez seja por isso que tomava tantos ansiolíticos pela manhã, total de três para ser mais exato. Coquetéis de antidepressivos, acredite, nem eles foram capazes de me ajudar.

Minha mãe nunca entendeu. Na verdade, minha mãe nunca se importou, ela e meu pai não conseguiam enxergar meus problemas, eu sei que tenho um pouco de culpa já que nunca me abri para eles de verdade, todas as aproximações foram bloqueadas por mim. Sei lá, eu não queria ver meus pais preocupados comigo, eles já haviam tantos problemas e lidar com um adolescente depressivo e triste talvez só aumentaram o stress e as coisas poderiam ficar piores. Eu os amo, mas não confio neles.

“Um hora vai passar” eu dizia para mim mesmo toda noite enquanto chorava, uma ilusão diária, já que nunca passou, talvez depois do que farei hoje essa frase enfim tenha sentido. Você não sabe como me dói estar escrevendo isso, principalmente porque meus dedos doem, há tempos que não escrevo pois só mando e-mails, mas queria deixar essa carta o mais original possível, e para comprovar que sou eu, deixei o meu caderno ao lado da minha escrivaninha para compararem minha letra. Acredite, a dor que eu estou sentindo não há como descrever, e você pode me julgar por isso porque muitas pessoas sofrem diariamente, principalmente jovens, e eles não tiram sua própria vida, mas eu não sou todas essas pessoas, eu sou único, e por mais que a dores e situações possam parecer uma com as outras, o que eu sinto você nem ninguém será capaz de entender.

Me desculpe por não ter procurado ajuda, ter enfrentado os problemas e ter me mantido firme, mas é que, como li uma vez num livro do John Green “Alguns infinitos são maiores que outros”, ou seja, minha dor pode não ser muito para você, mas para mim é intensa, profunda, toca a minha alma e machuca. Não me julgue, não me limite, você não me conhece e nunca terá a oportunidade de me conhecer, mas acredite, nada do que disseram era verdade, mas agora isso não importa, não é mesmo?

Agora preciso ir, obrigado por ler essa carta. Fique bem.

Att,

Thómas, o inútil.

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2 comentários em “7 segundos

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  1. Eu to chorando, e não é por que eu to mal por mim, mas sim por todas as pessoas que passam por isso. É como se eu pudesse sentir a sua dor, e ela me machuca, e eu não queria que você se sentisse assim.

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